Entre brinquedos, fantasias e hambúrgueres, existe um país das maravilhas. Como na história de Lewis Carrol, é difícil chegar lá e às vezes um pouco assustador, mas a recompensa para quem encontra e enfrenta o caminho vale a pena.
A 13ª edição do Creamfields começou com todos os 35 mil ingressos vendidos. Esse número vale para cada dia do festival (28 e 29 de agosto) e é limitado pela lei britânica. O público se espalhou por seis tendas, um palco principal, além de dois espaços patrocinados e uma área só para convidados. Foram mais de 160 atrações, entre coletivos, duos, artistas consagrados e aqueles que buscam ali a plataforma para chegar lá.
Uma das sensações do festival foi a Swedish House Mafia. O trio começou sua apresentação com cortina, contagem regressiva, caída de pano e milhares de pessoas ensandecidas. A tenda ficou com parte da lona aberta para aqueles que não conseguiram entrar pudessem dançar ao som dos astros de Ibiza.
O festival também teve um lado lúdico característico do norte da Inglaterra, pessoas fantasiadas, meninas com asas de borboleta, maquiagem fluo e certo clima raver, que foi apimentado pela presença de um parque de diversões. A maioria estava acampada lá mesmo, aproveitando o calor da estação, e todos queriam se divertir. A lama causada pela chuva no sábado em nada atrapalhou, só ajudou as meninas a desfilarem diferentes modelitos de galochas.
O main stage ficou cheio todo o tempo e a impressão é de que tinha mais gente chegando a cada segundo. Calvin Harris fez uma apresentação deliciosa, com banda e piano no palco, o último álbum tocado com maestria num show de disco music.
A festa nesse grande palco foi pop e as meninas dançaram felizes ao som de DeadMau5 e LaidBack Luke, mas foi com Tiesto e David Guetta que a loucura atingiu o ápice. Cada um a sua maneira, os popstar DJs ferveram a pista e até arriscaram fugir do óbvio. Guetta, que se apresentou no último ano e quase derrubou uma tenda - tamanho foi o frisson -, encerrou a sua participação desta edição do festival no main stage com “I Gotta Feeling", o hino-mala do Black Eyed Peas em sua versão mais dançante - como um astro do pop deve fazer -, mas também ousou tocar techno no meio do set, coisas de Creamfields.
O maior acerto do festival, inclusive, foi essa diversidade musical. Lá se apresentaram “musos” como Pete Tong, Erik Pridz, Erol Alkan e Sven Väth, esse último tocou um set longo e intenso, na tenda nomeada por seu club e selo, Cocoon.
Também houve espaço e público para todos os gêneros, como comprovou a sempre lotada tenda de drum´n´bass e dubstep no sábado, juntando a turma "das antiga" como hype e Andy C com Rusko e Benga, que derrubou uma massa sonora naqueles que esperaram até as duas e meia da manhã para vê-lo. No outro dia, foi a vez de Major Lazer e Annie Mac entregarem ao público as batidas quebradas e dançantes.
Richie Hawtin levou o live de Plastikman e impressionou com a sincronia de luz e som, um impacto quebrado duas vezes ao longo da apresentação por queda de energia. Seria alguém dançando mais animadamente no backstage que tropeçou na tomada?
Pouco antes, na mesma tenda, se apresentou Uffie, uma decepção compensada apenas pela qualidade dos músicos que a acompanhavam. Na sequência veio o casal tupiniquim Mix Hell, que começou tocando para poucos, já que a fofa anterior tinha esvaziado a tenda.
Na tenda ao lado, tocaram Judge Jules, Ferry Corsten e Armin Van Buuren. Com a ousadia e a variedade que foi apresentada no Creamfields, foi difícil sair insatisfeito. O conhecimento adquirido com o club Cream permitiu aos organizadores uma maior compreensão do seu público e o que ele queria ouvir, assim como estar localizado na Europa no meio do verão facilita e muito na hora de bookar o line-up.
A versão brasileira do festival acontece em janeiro de 2011 no sul do país e ainda não divulgou nenhum nome do line-up. Agora é torcer para que o espírito do Cream Liverpool inspire os organizadores daqui a fugir do óbvio.