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21 SETEMBRO 2010
Entrevista: DJ Meme!
Autor: Vivian Silva
Fonte: Rio Music Conference


Como surgiu sua ligação com a música?
DJ Meme - Surgiu no exato momento em que percebi que não gostava de futebol, morava em um prédio da Zona sul do Rio, onde todos os garotos da minha idade só gostavam de jogar bola. Precisei me reinventar, para poder me socializar, e como já ouvia rádio em demasia, e gravava tudo para escutar depois, resolvi criar festas no playground do edifício, onde eu levava os discos, as gravações e o equipamento. Assim, as pessoas tinham que ser minhas amigas para entrar na festa.

Qual a origem do apelido Meme?
DJ Meme - Quando trabalhei em rádio, mais especificamente na Transamérica, ganhei o apelido de DJ MM, pois na rádio Cidade havia um locutor chamado Mansur, e o diretor preferiu evitar confusões entre os nomes. Um belo dia, em que eu estava no estúdio editando, cortando e colando fitas para criar algum remix, o diretor da rádio me chamou pelo interfone, como eu não podia atender no momento, ele começou a gritar: -"Ô Meme, atende logo!”. O interfone era viva voz, então o pessoal da rádio também ouviu, e a locutora anunciou no ar uma produção que fiz como DJ Meme... Eu fiquei um mês reclamando do apelido, mas não teve jeito... Ficou!

Você começou sua carreira aos 11 anos de idade, com produção de algumas festinhas. Apesar da sua pouca idade, você já imaginava que trabalharia na área musical?
DJ Meme - Eu não saberia fazer outra coisa. Sempre me dediquei à música, em todas as épocas da minha vida. Achei que isso seria um hobby, mas quando vi, tinha virado algo valorizado pelo mercado... E aqui estou!

Você já trabalhou com vários artistas nacionais e internacionais. Como é remixar para tantos artistas com estilos diferentes?
DJ Meme - Para mim, não faz diferença, pois sou contratado para "trazer" a música do artista para o meu estilo. Essa é a proposta, se não, a original já seria suficiente. O remix foi criado com a intenção de mudar a música original. Se você puder manter algo da essência original, será bom, mas se não for possível, por não caber na direção que você escolheu, é comum que haja um sacrifício em nome do resultado final.

Normalmente quem solicita o remix? O artista ou a gravadora?
DJ Meme - Normalmente é a gravadora. Mas há casos em que o artista escolhe o remixer, e pede à gravadora que contrate esse ou aquele cara. No meu caso, há artistas que preferem que eu seja responsável pelos seus remixes. O Roberto Carlos é um deles, Fernanda Abreu outra e Kid Abelha também. Há alguns poucos casos em que o artista não tem gravadora, e vai direto a você para contratá-lo.

Você tem total liberdade para criar o remix ou o artista costuma opinar no seu trabalho?
DJ Meme - O princípio básico do remix, é que o remixer contratado escolha o que acha melhor. Como eu disse acima, a intenção é "vestir" aquela música com roupas diferentes. Cada remix é como uma roupa exclusiva, e cada remixer é como um estilista. Pode haver interferências, claro. Uma vez o Julio Iglesias ligou para a minha casa, para dizer o que ele não gostaria. O resto, eu podia fazer o que quisesse.

Há um tempo médio para fazer o remix?
DJ Meme - Isso depende de cada um. Eu normalmente levo de 1 a 3 semanas, dependendo da dificuldade de adaptar a minha ideia à musica original. Mas a média geral para todos é mesmo de 1 semana.

De todos remixes que você já fez, há algum especial? Por quê?
DJ Meme - Há vários, mas para efeito histórico, o remix que fiz em 1996 de "Estoy aqui" para a Shakira, tem que ser coroado, pois foi o responsável por estourá-la no mundo, segundo a revista americana Billboard, a bíblia mundial da musica. Este remix mudou minha carreira também, pois depois dele, pude mostrar meu trabalho fora do Brasil, o que aumentou minhas possibilidades. Eu uso esse remix como peça de promoção até hoje e funciona.

Como foi receber o convite pessoalmente da Yoko Ono, para remixar a canção “Give Peace a Chance” de John Lennon?
DJ Meme - A Yoko Ono chegou a mim através de Craig Roseberry, seu agente, que por sua vez me descobriu através de Michael Paoletta, famoso colunista da Billboard Magazine e fã do meu trabalho há algum tempo. Yoko Ono manteve o refrão original da música e colocou sua voz por cima, fazendo um discurso pela paz. Apesar de vários track da canção, nenhuma esteve no topo da parada dance da Billboard, conforme ela queria. Na fita original a voz de Lennon ainda estava lá e eu tive autonomia, para fazer o que quisesse. Para minha sorte, o remix chegou ao topo da parada dance da Billboard.

Já aconteceu de algum artista não gostar do remix que você fez?
DJ Meme - Já sim, uma vez. O Ritchie ficou incomodado com um remix que fiz para a sua musica “Transas”, nos anos 80, e pediu ao diretor da gravadora para reconsiderar a decisão de usá-lo. Eu estava presente na hora, mas não me importei, pois é o artista que representará o remix perante o público, e independente da aprovação dele eu sou pago. Eu sempre tive 99,9% de aprovação e muitas das minhas versões acabaram virando "oficiais". Isto já é motivo de orgulho, e ao mesmo tempo, foi o que me deu segurança para começar a produzir discos de vários artistas. Eu comecei a sentir que naquele momento, eu já sabia o que estava fazendo.

Qual sua análise sobre o mercado de música eletrônica atualmente?
DJ Meme - Isso aqui é o "país das maravilhas” da musica eletrônica mundial. Veja bem: 1- somos hoje o país que melhor paga um DJ. 2- Vivemos em um país de dimensões continentais, portanto sempre haverá um clube precisando de DJ. Eu por exemplo tive que cancelar meu terceiro tour fora do Brasil esse ano, pois aqui há gigs o ano todo, e esse ano está ótimo. 3- Todos os playboys com um pouco a mais de dinheiro no Brasil, ou filhos de alguém, resolveram abrir um club, e todos eles competem entre si, para ver quem traz o DJ mais caro, quem tem o club mais premiado, e finalmente, quem aparece nas malditas revistas inglesas que "premiam" clubs ao redor do mundo. Isso gera um ciclo de trabalho muito bom e atividade constante na cena brasileira.

Com sua vasta experiência na cena eletrônica, você acha que o mercado brasileiro deixa a desejar em comparação ao mercado internacional?
DJ Meme - Em alguns pontos sim. Lá fora a musica eletrônica é uma realidade. Eles vivem isso há muito tempo, não importa a moda. Aqui, estamos vivendo um período de “vacas gordas”, mas que todo mundo já viu que é facilmente abalado por micaretas, "Ivetes" e a nova febre que pegou os ditos "clubbers": o show sertanejo. É só aparecer um... e já era a sua festa. A grande diferença, é que aqui quem vai à micareta, também vai ao club “X” ou a rave “Y”.

Você já se apresentou em vários locais do mundo. Existe algum lugar que marcou você de maneira positiva ou negativa?
DJ Meme - A Indonésia me mostrou que ser DJ é algo maior que eu pensava, pois o lugar é culturalmente e tradicionalmente tão distante do que imaginamos de uma cena eletrônica, mas ao mesmo tempo valoriza tanto o nosso trabalho, que fez com que eu achasse importante estar ali, e gostasse mais ainda do que faço. Não posso dizer que há algum lugar que me marcou de forma negativa, pois sempre haverá pessoas a fim de ouvir o seu som, e é por isso que nunca devemos traí-las.

Você tem novos projetos musicais? Quais são?
DJ Meme - Tenho 3 projetos no “forno”, mas está cedo para falar sobre eles. São todos para o ano que vem.

No momento você está produzindo algum artista? Qual?
DJ Meme - Não produzo mais artistas. Desde que surgiu a crise causada pela pirataria e pelos downloads gratuitos, não há mais dinheiro em gravadoras suficiente para me atrair. Atualmente não vejo mais nenhuma compensação, e o meu lance é mesmo ser o que sempre fui: DJ!

Entrevista concedida à Vivian Silva - do Portal Rio Music Conference



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